KRUGMAN: ECONOMIA GLOBAL PROJETA CENÁRIO DECEPCIONANTE

23/10/2015


Krugman, que vem ao país em novembro para participar de evento da empresa da área de gestão empresarial HSM, diz que a situação brasileira é “um pouco humilhante”, mas está longe da registrada em crises anteriores.

A temida perda do grau de investimento, afirma, não faria tanta diferença para o país. “Isso gera manchetes, mas o que importa mesmo é a percepção” dos agentes.

Folha – O cenário global tem realidades distintas hoje: EUA e Reino Unido falam em aumentar os juros, enquanto a Europa deve manter as taxas baixas por um longo tempo e os emergentes apresentam problemas. Qual é a perspectiva nos próximos cinco, dez anos?

Paul Krugman – Não acho que estejamos olhando para uma crise em larga escala. É claro que você nunca prevê algo assim, mas não espero uma nova crise como a de 2008. O que está acontecendo é que o cenário global começa a se parecer com o que o europeu tem sido há algum tempo: baixo crescimento, pressões deflacionárias e desempenho econômico bastante decepcionante.
Parece que estamos em uma situação em que ninguém quer gastar, não há demanda suficiente. Temos um problema de superoferta global. Vai levar um tempo até que consigamos determinar se isso é uma estagnação secular, mas certamente estamos olhando para um mundo com uma falta persistente de demanda adequada.

O Brasil enfrenta uma crise econômica, aliada a um cenário de incerteza política que prejudica o ajuste fiscal. É uma das piores crises da história recente do país?

Apesar de o Brasil estar obviamente uma bagunça, do ponto de vista político, e mesmo que a economia tenha sofrido um retrocesso perto de todo aquele otimismo de alguns anos atrás, os fundamentos econômicos do país não chegam nem perto de estar tão ruins quanto em episódios anteriores.
A situação fiscal não é desesperadora e o país está longe de um momento em que precisaria imprimir dinheiro para pagar suas contas. A taxa de câmbio está alta, mas nada perto dos níveis que associamos a crises graves.
Houve, sim, impacto da queda nos preços das commodities, e isso é significativo. Mas o Brasil de 2015 não é a Indonésia em 1998, nem a Argentina em 2001. É um problema, é desagradável e um pouco humilhante se ver nesta situação de novo. Mas as pessoas estão exagerando.

O país perdeu o grau de investimento concedido pela agência de classificação de risco Standard & Poor’s em setembro, e um novo rebaixamento pode ocorrer até o próximo ano. Qual poderia ser o efeito disso para o Brasil?

Nos países avançados, as classificações de risco não têm efeito nenhum. Para o Brasil e outras economias emergentes, isso ainda pode importar um pouco, mas bem menos que antes. É importante dizer que não há informação nenhuma na nota, as agências não têm nenhuma informação que as pessoas que acompanhem os dados e os jornais não saibam.
Isso pode ter algum efeito porque há alguns investidores institucionais que são obrigados a considerar o rating para montar seus portfólios. Mas eu suspeito que isso não seja grande coisa na situação atual. Isso gera manchetes, mas o que importa mesmo é a percepção.



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