Entrevista de O Globo ao professor Giuseppe Gherardi – Conte algo que não sei

05/01/2017


O jornal O Globo publicou hoje (dia 5 de janeiro) uma entrevista ao professor italiano Giuseppe Gherardi, que em dezembro participou do Forum IEL de Gestão Empresarial organizado pela FIRJAN com o apoio da Câmara Ítalo-Brasileira de Comércio e Indústria do Rio de Janeiro (para saber mais, clique aqui).

A entrevista foi publicada na coluna Conte algo que não sei. Segue o artigo completo:


Giuseppe Gherardi, engenheiro e professor: ‘A necessidade pode surgir do desejo’
Especialista em tecnologias para produção de móveis, italiano veio ao Rio participar do Fórum IEL de Gestão Empresarial – Setor Mobiliário, na Firjan

“Nasci na Itália, formei-me em Engenharia de Transportes, mas fiz carreira na indústria moveleira, com foco no desenvolvimento e na aplicação de novas tecnologias de produção. Sou professor de Gestão da Produção Industrial Moveleira da Università degli Studi di Bologna e da Università Commerciale Luigi Bocconi.”

Conte algo que não sei.
O grande desafio para o futuro é estimular nas pessoas a capacidade de criar. Hoje, a universidade diz: “Aprendam as regras, usem-nas e terão sucesso.” Porém, as regras que aprendemos deixam de valer rapidamente, pois o mundo se transforma com enorme velocidade. Em dez anos, 50% das profissões de hoje não existirão mais, assim como haverá profissões que não imaginamos. Então, o que a universidade tem de oferecer não é a teoria que se possa aplicar hoje, mas a teoria aliada à prática, para que se possa construir o futuro.

Quais as mais recentes descobertas e tecnologias aplicadas à fabricação e ao uso de móveis?
Existem duas grandes famílias de tecnologias inovadoras. A primeira diz respeito ao processo de produção, que permite fazer móveis de maneira personalizada, através de tecnologias flexíveis de automação. Deixamos a era do produto padronizado e de massa para o personalizado. A segunda família de inovações diz respeito aos produtos. Os mais fascinantes avanços vêm da nanotecnologia, que confere características e acabamentos muito específicos.

Cite um exemplo.
Um verniz que repele a poeira, assim como um outro que faz com que um líquido que caia numa mesa escorra, sem deixar umidade. Há tecnologias que permitem aplicar um spray ou luminosidades num móvel e ele muda de cor.
Até quando a indústria acreditará que é capaz e que é sua função atender aos infinitos desejos e gostos do cliente?
A indústria precisa acompanhar, ou morre. Se uma indústria se opuser à necessidade de atender a desejos, alguém vai fazê-lo.

Mas há diferença entre desejo e necessidade. Poderíamos nos satisfazer com aquilo que atende às nossas necessidades?
A necessidade pode ser real ou surgir de um desejo. Antes que este telefone existisse, não precisava dele, mas eu o desejei porque era belo, ou sinal de status. Mas, depois que o conheci, descobri as necessidades que ele atendia. Se necessidades e desejos puderem ser satisfeitos com valor sempre haverá uma empresa pronta para atendê-los. Mas sua pergunta inclui um elemento ético. É justo satisfazer a todos os desejos?

Como a indústria negocia com os limites da natureza?
É uma questão filosófica. Creio que mesmo um sistema econômico que não ponha limites, aparentemente, à satisfação dos desejos não vai nos levar à destruição. Os excessos poderão ser reconhecidos a tempo por pessoas inteligentes de bom senso, e, um minuto antes da autodestruição, alguém apertará o botão stop. É minha visão do mundo.

Qual é a importância deste setor para a economia italiana?
O sistema madeira-móveis representa 8% da indústria de fabricação italiana, com faturamento anual de 26,7 bilhões de euros. É um percentual muito alto, se levarmos em conta a força da Itália nas indústrias de máquinas, motores, moda, calçados, couro, entre outros. Somos o segundo exportador mundial de móveis, atrás apenas da China.

Qual é o principal requisito ao se produzir um móvel?
Design.

O que faz um móvel se tornar uma peça de arte?
Quando design, função e materiais se fundem, numa coerência única. A chaise longue de Le Corbusier é um raro exemplo de comunhão entre simplicidade, beleza e funcionalidade.


Fonte: O Globo

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